terça-feira, 29 de setembro de 2015

Embora...

Eu acho bonito ter deus como amigo, o lá de cima tá aí para isso, não é? Para tudo... E aí entende-se que o deus de dentro é que predomina, é dominado aquele que se domina e aceita a condição de ser. Não há como ser levada a sério não tendo chegado à maioridade (ops, maturidade) e, se toco nesse assunto, é porque é realmente relevante. Precisa-se de experiência. Precisa-se de trabalho para ter experiência. Falta atitude, em todos os aspectos. De amor o mundo está saturado. Amor que vem, que vai. Que acaba, que fica, que não tem volta, que dá a volta, por cima e por baixo. É o fato de entrar no outro que complica, porque quando uma alma é penetrada, ela deixa de ser par e torna-se uníssona. E isso corrói. Precisa-se do tom. Do mesmo tom. Não falo de timbre, falo de tom. E verde não combina com roxo, mas eu gosto desse tom sobre aquele. Cor-rói porque é importante, embora disso também nos esqueçamos... Cores, sabores. Embora disso estejamos todos precisados. Eu falo de alma, porque em corpo não há correspondência, não verdadeiramente. Mente quem diz que corpo sente. Corpo fala, explica, grita, suplica, sussurra... alma que sente. E eu, sinto muito.
Se eu te digo que quero ir embora, muito embora eu tenha carinho por tua existência, talvez eu queira dar uma volta. E em um círculo sempre chegamos ao mesmo lugar. Já me ensinaram bem cedo que a Terra é redonda, gira, e os dias se sucedem. E não foi difícil entender a princípio, mas agora me parece muito mais complicado me entregar ao ciclo. Nem ao meu próprio eu gosto de me entregar, sangra. Nessa volta, eu provavelmente precise encontrar o silêncio e ouvir suas palavras. As pessoas contam os dias pelas horas, eu conto pelas repetidas vezes em que pisco os olhos e pauso tudo à minha volta. Para suspirar. Pausar dói. Mudar dói, mas não mudar dói muito. Se eu pisco agora, é o meu corpo fazendo o favor de me ajustar, para eu rever todos os detalhes de antes, mas de outra maneira.
Se eu deito agora na minha cama e aposto comigo mesma que não vou abrir os olhos até dormir, perco, porque eu sempre abro, mesmo sabendo que está tudo escuro e vai demorar um pouco até eu entender o nada. Adaptação. Isso é o que me aguça o sentido, o sentimento, e me assusta. Até a forma ser o que é, demora. Até eu ser o que sou, já fui. E vou ser de novo, sem saber. E de novo um ciclo. Ciclista... Bom saber que alguém sabe se orientar em cima de dois ciclos. E ainda administrar o vento, porque o vento que bate aqui é o mesmo que bate lá, e ali. O que o vento vem me lembrar talvez venha te fazer esquecer. Algo ele tem que levar, ou entregar. Que seja, que venha. Mas venham novos, renovados. Ares sem condições. Ar condicionado apenas de aeroporto, para distâncias que não nos permitam andar por cima dos ciclos... Soluções, soluços. É água salgada, da qual a gente precisa contemplar antes de sentir o gosto. Se eu te fitar demais algum dia, é porque de algum modo você se perdeu nos meus olhos, e eu vou te procurar em cada parte desenhada dos teus ossos, assim, quando eu te achar, presentear-te-ei de novo com teu devido valor. Valor ajustado. Cobra-se mais caro por carinho, porque de amor o mundo está saturado.

Serei a dor, a melancolia. Serei a alegria do instante que parecer... Desaparecido. Serei-a. Em cada fio de pelo e centímetro de pele, serei em ti – no mínimo sete vezes ao dia. Eu não posso segurar ninguém com a minha força. Mas, sinto que estão todos querendo sair, talvez de mim, para que caibam mais, outros. Entretanto, fechei todas as panelas com as minhas tampas específicas. Guardei nelas as essências e respirei fundo. Quero mesmo é que me encham e, se necessário for, que me encham o saco, aliás, a panela. Que transborde, que eu seja então mais forte que eu, que eu aguente a pressão. E desligue o fogo, porque criança que mexe com fogo... Queima-se.

empoeirado (2011)

às expectativas de unhas grandes

Expectativa é igual gato... Ela te acorda cedinho, arranhando a sua porta, faz você levantar só para abrir e começar o dia. Quando já desperta, ela fica te arranhando para lembrar que existe. Depois de te machucar o dia todo, quebra seus pertences, aparece no meio do caminho para você tropeçar, faz você subir pelos móveis, às vezes literalmente. Ela também estraga suas plantas, porque você estava esperando demais que florescesse. No fim do dia, ela resolve deitar em cima de você, atrapalhando sua tomada de decisões, aliás, de posições. Você quer virar à direita, mas ela está ali. À esquerda, ela de novo. De vez em quando, no frio, é ela que te esquenta, aconchega. Ronronando, dorme enrolada na sua perna para te fazer acalanto. No meio da noite, ela vai te incomodar um pouco, provavelmente te acordando e te fazendo redistribuir os lugares na cama. Novamente, o acalanto, o sono, os sonhos. Mas, não se engane, no outro dia, de manhã, bem cedo, ela vai atacar e arranhar novamente para te avisar que o dia acordou (e ela também).

Fica combinado que o ideal é não criar expectativas, apenas gatos.


À Maia, minha gata que come as baratas por mim.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.


Manoel de Barros

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

dia adjetivo

BB: umdiadecadavezumdiadecadavezumdiadecadavezumdiadecadavezumdiadecadavezuhcunkndckdnsuidciudcuumdiadecadavez

TT: Assim não dá. Deleite-se na vírgula, descanse no ponto e acorde com um bom parágrafo. Maneire nos travessões, hein?1

BB: Assim não dá! Deixei para lá os travessões, vou atrás das travessias. Sobre as vírgulas, elas não separam sujeito de predicado, então prometo abusar dos pontos, mas os finais... Os de exclamação, por ora, não vão ajudar muito. Os de interrogação são inevitáveis. Hunf, nos parágrafos, pretendo deixar um bom espaço antes de começar a escrever, ajuda na estética, logo, na organização. Mas a coerência, ah, a coerência não vale nada sem a coesão (essa está difícil de encontrar)!

TT: Vejo que os calorosos sinais brotaram gentilmente de sua morada, esta noite dormirás acordada. Dentre todos os pontos e acentos acolhidos num momento, até mesmo dos parênteses que sem o chamado nos visitam, sinto falta de um danado, o hífen. Talvez falte um pouco de trema. Ô, vida craseada.

BB: É, o hífen e o trema andam caindo por aí. A gente que se cuide nessa cadência. E aprenda a ser cada vez mais agudo, mais metáfora e polissemia...... Não vamos falar da subordinação das orações, porque não quero entrar no mérito religioso rsrsrs


paradoxo


Foto: Harry Callahan

Alergia a condições

    Acordei com uma incômoda coceira precedida de uma marca branca e dolorida. Depois de dez anos, alguns mil reais, discussões, momentos descontraídos, boas refeições e viagens, lá estava eu com aquela coceira no dedo anular da mão esquerda. Anular será o nome por ser um dedo nulo, sem importância e mérito? Se assim fosse, marcas não ficariam.
     Bem sei que, quando se diz o “sim”, declara-se o eterno. E pode ser que já não se divida mais a mesma cama nem os roncos noturnos. Pode ser que já não morem sob o mesmo teto nem tenham as mesmas divergências nem procurem encontrar-se no mesmo tempo. Mas, a marca de sol e a marca na vida permanecem.
     Foi após uma overdose de lugares e de pessoas inéditas que o relacionamento deu-se por findo. E finito não eram aquelas lembranças. Pude experimentar, em matrimônio, o suor de muitas criaturas interessantes.
     A sola dos meus sapatos suplicava por não mais ser aberta. Eu não resistia e abria. E também abria a mim. Apetece-me conhecer as pessoas a tal ponto de saber se elas existem de fato, se possuem marcas ou se não se importam com isso.
     Contanto, sempre tive a companhia preferida e então uma angústia de querer pertencê-la. Todos temos. E busquei por diversas vezes aguardá-la sorrateiro num canto do balcão, ou do restaurante. Ou da estrada, ou da vida. Fazia por merecer.
     Nunca fui homem de um corpo, aliás, nunca foi homem de nada. Queria engolir o mundo e encontrar partes perdidas, prestes a caberem. E numa dessas a conheci. Estabelecemos um relacionamento diferente e feliz, mas só a princípio. Queríamos nossas liberdades individuais garantidas, pretendíamos não nos prender um ao outro somente. E então acabamos enjaulados numa caixa de sapatos do centro, sem elevador.
     Demoramos muito tempo para nos conformar com o nosso inconformismo. Quando aceitamos, revimos todos os fatos. E lá estava ela, a escondida e esperta monogamia. E que palavra mais feia, soa repetitiva, lembra monótono ou monotônico. Ao debruçarmo-nos no passado, pudemos notar nossa irracionalidade humana em subestimar nosso instinto animal.
     Sempre mantive relação com várias pessoas distintas, achava necessário trocar assim, dava-me o direito e o luxo de me cercar vez ou outra com doses mais caprichadas de alguém, mas não tinha necessidade de criar condições e entrar nas convenções sociais.
     Era importante para ela que recebesse o anel de preferida. Tudo bem se eu tivesse outras experiências e continuasse peregrinando com minhas vontades em chamas, mas ela precisava garantir-se eminente e superior. É triste que tenha demorado tanto para entender que só seria superior se pertencesse mais a si própria que a mim. E então, a marca branca no dedo ainda me lembra seus trejeitos, mas à ela só lembra minha facilidade de possuí-la e fazê-la uma parte, preferida, mas parte.

     Eu avisei que não saberia conquistá-la diariamente, que era melhor que não se infiltrar demais na minha cadeia, pois eu já era preso demais à minha liberdade.

empoeirado (2012)

Não é preciso ver para crer

É de praxe cruzarmos com muitas pessoas pelas ruas, a todo momento. Basta sair de casa para sentir na pele, ou melhor, não sentir, a constância com que passamos por cidadãos. Apenas passar, atribuindo naturalidade a esse encontro de corpos num espaço não determinado previamente, traz a origem do problema de invisibilidade social.
Essa não visão do outro é problemática, uma vez que é conferida à população por meio dos padrões de consumo e situação social em que se encontram. A maioria das relações sociais é pautada pelo material, ou seja, pelo o quê e quanto se possui. Conhecemos e interagimos com alguém por meio dos mecanismos de conveniência que ambas as partes podem proporcionar.
A fim de melhor exemplificar, recorremos aos garis, borracheiros, pedreiros, faxineiras, cobradores, entre outros prestadores de serviços específicos que têm grande parcela na estrutura da civilização e garantem a pirâmide em seu “devido” lugar, como ditam as preferências burguesas (médias e altas).
Muitos são os transeuntes que não percebem a presença sutil do outro em seu lugar de trabalho, ou até de moradia, como é o caso dos mendigos.  Por não haver necessidade de se encarar, ou de conversar para resolver pendências, tornamos os inferiores economicamente menos importantes.
Nesse aspecto reside um grande erro da modernidade, pois são por esses serviços básicos e que quase sempre exigem uniformes particulares e evidentes, que a civilização possui dinamismo e caminha para eficiência nos serviços “discretos”.
Com destino traçado, atraso e correria, as pessoas passam pelos pedintes e trabalhadores e os encaram como parte da paisagem e da urbanização. Reivindicamos melhores direitos, moradias, impostos e até reclamamos desses fatores “feios” sujando as metrópoles. No entanto, poucos recorrem às instituições responsáveis a fim de alterarem essas condições. Até porque o pensamento forte dita: não me diz respeito, não me interessa.
O ser humano só é socialmente aceito se criar vínculos, se formar relações e graus de subordinação, principalmente econômica (socioeconômica). A partir daí que se montam as classes. Geralmente, quem está embaixo na escala, está tendo que trabalhar muito para se sustentar e não sobra disposição ou tempo para se preocupar com qualquer classificação.
 Infelizmente, pensa-se demais para dentro. Externamente, enxergamos apenas os apelos promocionais e de publicidade. Passa-se uma cidade de geração em geração e o comodismo é tanto dentro das camadas que só vemos quando queremos ou somos solicitados. Para crer, só é preciso existir e andar alguns quarteirões.

Há indiferença em muitos setores. Vê-se mais a função exercida pelo indivíduo (quando vê) que a sua personalidade. É como submetermos pessoa à máquina. Experimente tirar os lixeiros e as faxineiras de circulação por aproximadamente um mês e se notará a diferença, a participação marcante desses grupos considerados “menores”, mas que tanto influenciam no funcionamento da sociedade atual e preconceituosa.

empoeirado (2012)

Será?

Será - Vídeo Poema

Vídeo Poema, 2º lugar no Festival Londrix (Londrina, PR) de 2012.

É que nós...

Resposta ao texto: Equinócio
(Carolina Sanches)

Sempre: deve ser um exercício que não existe.  Mas, constantemente, que possamos rasgar o perigo e acelerar o coração. Temos anseio. Nós, atadas. Teimo por ter conhecido essa escrava da adrenalina, por soltar meus olhos, por me colocar debaixo das asas, que não servem só para voar – protegem do frio. 
Nós mesmos somos os processos, não estar junto nunca foi fato. A gente acredita no tempo, mas não controlamos as mudanças, as pausas, os assentamentos. Controlamos as tempestades para existir algo.
Língua: existe só, na nossa saudade. Às vezes estamos, noutras, silenciamos. Nosso descontrole é a própria memória da vida, nas mãos. Também faz parte todo esse egoísmo do esquecimento. Lamento. A pureza de sobressair à dificuldade. Deixar os contratempos abaixar toda essa sujeira abaixo dos pés, dos olhos.
Nunca sei dizer e peno, por ora, em escrever. É impossível subir no trem, sentar em um lugar, em seguida descer e, rapidamente, subir no mesmo vagão. Os poetas, bem como os vagões, mudam seus destinos, mas, em movimento, não deixam de ser eles mesmos.
Clareza é valiosa na dificuldade de amadurecer. Só quem passa pelo fulgor pode reconhecer e chegar com plenitude.
Estou confusa, mas fiquei. Porque em mim está acordada a noite, o calor. Tenho medo de somente estar nas coisas em vez de ser. Agir. Reagir.
O destino é o próprio caminho. É ir. Prosseguir. Tentar perceber os motivos, que encontraremos no decorrer de cada viagem. Continuar.
Sim, precisamos ter desobediência.
O que está vivo no encontro das línguas não deve ser contido.
Pelos dias claros, a essência e os odores verdadeiros:
quero o mais profundo. O toque. O mais intenso. A respiração. O que anda guardado. O suspiro. As lágrimas. Todo mar que já foi navegado. O desconhecido. O velho. O que ainda não cessei.
Nunca é igual. Devemos buscar alicerces, porque juntas a estrutura não se desconstrói sozinha. Nunca vai ser igual.
Cortam os troncos, talham as árvores. Para tanto, o zelo precisa continuar vivo. Nas raízes está o cuidado.
Isso é fado.
Nunca nos apagaremos. Mas, a cada estrela não acesa, perdemos a tentativa. Tentar é fôlego, é força. Portanto, estamos perto de uma vontade e não precisamos forçar a resposta, a explicação. Sentir, neste momento, é querer... Tentar.
Sei que preciso moldar muitas formas que busquei me modificar. Creio que esculpir seja um eterno ofício da vida: lixar, rodar, tatear, equilibrar. É preciso adentrar as coisas escavadas. Esculpir o rio, a pedra, a estrutura, o eu.
Adentrar o oco. Interiorizar as texturas.
Estamos insuficientemente envergadas, hastes que precisam de qualquer brisa.
Sempre nos ritmos delas. Ainda que eu não dance, nem balance... Sinto.

B.B.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Dança a sós, a nós

    Sentia-se uma pessoa plena, formada por sutilezas e pontualidades. Adorava que bordassem com os fios de seus cabelos, formando penteados brilhantes, e tecessem toques aveludados e macios sobre seu corpo, para conduzi-la. Era amante de si mesma e traíam-lhe os pensamentos sorrateiros e soturnos. Tinha uma rotina sofisticada, uma agenda completa de rabiscos e anotações, recados e versos soltos. Alimentava pela dança uma paixão silenciosa. Doía ao viver esse encantamento intenso. Entregava-se ao mais profundo sentimento, ou melhor, aos movimentos.
     E tudo quanto era giro, braços ao alto, gracejo, balanço de cabeça e aceno peculiar fazia com que se envolvesse.  Acompanhava desde as mais simples até às mais complexas ações. Quando de um canto aparecia aquela criatura fisicamente desenhada, contornada por linhas caprichosamente delimitadas, embora assimétricas, com tudo quanto é tipo de desenho nos poros, em lugares cuidadosamente escondidos, conhecidos apenas pelos colegas de camarim, seu sangue parava de correr, fazendo com que seu coração bombeasse o mais inconsequente amor, sem ritmo e dose determinados. Descompasso.
     E ela, imediatista que era, cedia ao conforto de seus abraços que a tocavam como se procurando detalhes. E achava. Conduzidos por aquela música forte e alucinante de suas consciências em sintonia, encontravam um o ponto fraco do outro. O ponto crucial, o ponto chave de toda dança, e saltavam. Estremeciam pela força com que haviam de segurar-se um ao outro, pela tensão que mandavam a todas as pontas. A saliva já densa, quase seca.
     Minutos a fio buscando o pulso firme, a hora exata, o local certeiro em que as mãos encaixariam em sua cintura, equilibrada, com ossos pontudos, ou aqueles braços sustentariam suas partes inferiores, contraídas. Os membros dos dois já correspondiam-se, simultaneamente, sem precisar de estalos na contagem. Na madeira, suscitavam inúmeras melodias.
     As roupas do figurino tornam-se parte da coreografia no chão, como se ensaiadas a enrolarem-se por entre as pernas, enrolando o casal a se olhar e se sentir chegar ao mais fundo de toda concavidade humana, que é dentro dos olhos. Alcançavam a mais sensível camada, vermelha e rígida de tanto querer chegar ao fim da música com êxito. Conquistariam paixão da plateia ou o mais sublime desejo de copiá-los. Tábua por tábua era contemplada pelas trocas ofegantes e rolamentos. Os estalos vinham depois de todas as articulações que, sem o devido alongamento, faziam barulho. Depois do impulso da entrada, do êxtase, amoleciam, frouxos, salgados.
     Dançando a quem quisesse assistir, prosseguiam ao contemporâneo com sons repentinos e movimentos bruscos. Proporcionavam o harmônico jogo entre corpo e mente, buscando o prazer em essência. Quase circenses, propunham acrobacias e posições incríveis, contorciam-se, alongados, e domavam-se um ao outro, com arrepios cálidos e ardentes, devesse ser o sol de fora, quente tanto quanto eles. Impulsos. Espasmos sem permissão insistem em aparecer. Apertam-se, unha na carne e dente na pele, fazendo marca, massagem, apoio.
     Um preso aos dedos e membros do outro. Seguros, fixos, salientes, acostumados. Por tanto tempo trocando passos e passadas, surgem súbitas carícias de amor latente. Rendem-se ao mais próximo colchão, relaxando suas partes cansadas e forçadas. Deitavam um sobre o outro, disfarçadamente, queimando. Molhados, conheciam-se em absoluto. O toque indicava o caminho. E ambos sabiam onde queriam chegar. Silêncio.

     Misturavam-se as peles e os cheiros. Gotas de adrenalina escorriam entre os cantos. Suor. Invadiam os buracos mais secretos do lugar, embaçando o espelho, cúmplice e invejoso por copiá-los com exatidão. Logo as luzes se acenderiam, logo as cortinas se abririam.

domingo, 21 de outubro de 2012

socorro!


eu tardo eu ardo eu sinto o fardo eu sou ele ou ela ou aquilo isso eu não sou eu não encontro eu enlouqueço eu estremeço eu esqueço sou esquecida aquecida estou resfriada deitada amada armada querida sentida sentido eu compadeço eu declaro eu falo eu assusto eu repudio insulto aconteço padeço pareço sou parecida eu queria quero quereria se eu sofro eu acordo eu não durmo sonho pira consciente fluxo santa não sou compasso abraço refaço deixo volto atino complico irrito sou nervosa tenho nervos aparentes e nao tenho aparência consequência sequência demência eu cresço eu transfiguro sou transcendência sou infame infalível incontestável nem me preocupo sou interessada e preocupante presa me liberto me renego me favoreço me despedaço dilacero dilato pulso sinto sangue vejo verde desejo tenho vontade cega enxergo colorido dentro fora não há nada e não nado não tenho água sou lagrima escorro socorro!

Corpo é papel


Texto é guarda-roupa
Caneta é cabide
Papel é gaveta
Palavra veste
Tem roupa que não serve mais


Ela veio

Veio vestida com blusa de florzinhas, meio vermelha, meio violeta, meio rosa. Desabotoada e prestes a abrir-se, a mostrar mais uma de suas pétalas recobertas e camufladas por uma camada fina de pelos, que nada mais querem dizer além de delicadeza com os poros. Chegou prestes a abrir-se, perpassando  silêncio cheio e sorrateiro da noite de quinta. Pois então abriu os braços, não como quem está explodindo furtiva e calorosamente. Mas como quem constantemente transborda e, sutilmente, encaixa e aquece. E que cheiro bom possuía. Artificial, é verdade, mas completamente condizente. Olhos e sorrisos marejados, quase fechando. Vermelhos, marginais. Em suas margens os cantos, a dobra da pele formando morada. Em essência, o fato de me roubarem e fugirem comigo dentro. Eu não sei por quanto tempo me farão refém. Contanto sei que me prendem e nesses instantes perpetuam. Boa conversa, um tempero, uma comida fervendo e um cigarro. Dois. A cada palavra ou gesto, mais uma de mim que me abandona. Escapam-me centenas de protótipos e sobram apenas as duras tentativas de me ser. Alguém respira em mim, me pulsa e impulsiona. É impressionante como meus membros articulam e respondem sem me perguntar. E a pedra que carrega pendurada no pescoço, feito amuleto, me sorri. Ela sabe, no fundo, que está num dos meus lugares preferidos em você. No colo. Você brinca com as minhas muletas tentando entender o mecanismo e eu levo a sério suas tentativas. Todo mundo precisa saber com que pé pisar firme. Os dois. Por isso abandono aos poucos esses pedaços de ferro cilíndricos, mas sim, um passo depois do outro. Equilíbrio. Aproximo-me, me chego até seu aconchego quieto e confortável. É necessário caber. Além de medir as palavras, é preciso colocá-las nos espaços convenientes. E coube. E nós sabemos o quanto mais caberia se as palavras não pesassem tanto. Ou meu corpo não pesasse ou não possuísse tantos ossos. Pontudos. Pontuais. Músculo rígido. Pensamento e fluxo flexíveis. Você não. É maleável, quase mole, eu diria. Apetece-me seu braço feito travesseiro e meu corpo repousando branco no seu. No céu. Seus dedos articulosos contornam os desenhos dos meus fios de cabelo.  Sabe onde tocar e inventa uma orquestra em meu corpo. Que dança. E você atua me deixando fascinada pela forma que divide o palco comigo.  Das tuas divisões, gosto dos círculos com outros círculos no meio, sobressalentes. Suspiro, em espiral. Parece-me que a cada vez que nos descobrimos, os conheço um pouco mais. Eles guardam o que de mais vivo existe. O músculo que bombeia e ajuda a levar sensibilidade para todo o resto. Todas as pontas, entradas, beiradas, saídas e partes escondidas. E então você me acelera. Já não me preocupa mais quem está no quarto ao lado. Dilacera o meu mais íntimo, o que de mais “meu” eu tenho, que lateja. Que paguem o resgate. Interessa-me somente que, enquanto os lençóis se torçam e enrolem, você esteja em cima. E em cima de nós a lua. Ela veio. Bordada de flores, pendurada no pescoço. Prestes a camuflar e recobrir-me, de florzinhas. Meio rosada, meio viole(n)ta, meio vermelha.